segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vestido preto

Uma vez a garota foi a uma festa. Com seu vestido
preto básico e suas sandálias novas ela estava realmente
linda.
Todos a sua volta dançavam, bebiam e trocavam uns
com os outros olhares que pareciam chamar pra curtir a
noite sem pressa e sem arrependimentos.
Aquela magia envolveu a garota de uma maneira tão forte que, assim que seus olhos se encontraram com os olhos do garoto  tudo passou a correr de modo óbvio para ambos. De maneira óbvia ele se aproximou, de maneira óbvia ele a
tirou para dançar, de maneira óbvia eles se beijaram e
muito obviamente eles terminaram a noite no banco de
trás do carro dele.
Depois do sexo a sensação de frescor e, com o sono
pesando sobre os olhos, a garota e o rapaz adormeceram.
Acordaram junto com o sol e se olharam para
reconhecer um ao outro.
Junto com o começo do dia uma nova história começava
para eles. A garota, sem roupa sentia-se protegida e o
garoto sentia-se um novo homem.
Aquela teria sido a primeira experiência sexual de ambos se não fosse a terceira de cada um.
É de repente que a garota olha o relógio e diz ao garoto que precisa voltar pra casa. O garoto então se oferece para levá-la,  mas ela recusa. Quer ir a pé para poder pensar. Com um beijo na testa do amante, ela desce do carro e segue o caminho que a levará para casa.
O garoto segue em sentido contrário de repente sente que não poderá mais ir para nenhum outro caminho que não seja o dela.
O único detalhe é que não trocaram nem endereço nem telefone.
E muita coisa aconteceu sem que eles se encotrassem.
...

Ele demorou muito tempo para perceber onde estava. Sua
mente estava tão vazia quanto as paredes brancas do
hospital. A cabeça doía e ele não conseguia mexer a perna
direita.
...

O jantar esfriava na sua frente e ela demorou muito
tempo para perceber que a mãe falava seu nome. A cabeça
doía e ela não conseguia parar de pensar nele.
...

Depois de muita insistência por parte da mãe, o garoto
concordou em permanecer em casa por alguns dias.
...

O telefone toca e a garota atende. É o pai comunicando
que as passagens do ônibus já foram compradas e que ele
a esperará na rodoviária na manhã do dia seguinte.
...

Noite quente de céu estrelado. Um garoto entra no
salão sentado em uma cadeira de rodas. A música toma
conta do ambiente. Rostos diferentes e, ao mesmo tempo,
tão iguais dançam despreocupadamente.
Ele procura por uma garota de vestido preto, mas não consegue encontrá-la. Besteira esperar, besteira acreditar em sonhos de criança.
Encostada na porta do carro ela espera impaciente o
irmão trocar um pneu furado.
Tudo pronto. Ela retoca o batom, escova os
cabelos, ajeita o vestido preto e, finalmente, entra no
grande salão. O irmão se perde no meio da multidão. E a
garota, vendo seu sonho virar triste realidade, chora.
Resolve então, voltar para casa de táxi mesmo. Mas de
repente é tão difícil encontrar algum...
Depois de algum tempo alguém faz sinal para parar um
carro. É um garoto de cadeira de rodas.
A garota pensa em quão louca tem que ser uma pessoa para ir a um baile com parte do corpo engessado. Resolve pedir para que a corrida seja dividida e então se aproxima do garoto.
Toca seu ombro e então ele se vira para ela.
Dois pares de olhos se afundam um no outro e esquecem
do mundo enquanto o motorista pergunta para onde deve
seguir.
É neste momento que eles sorriem e respondem:
- Nós já chegamos.


Um comentário:

  1. [Rafa] [rafa_gast@yahoo.com.br] [http://cenasdavidaurbana.blog.terra.com.br/]
    Amei o texto! e obrigado pela visita no meu blog! venha sempre! abraços

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