"E de repente a tempestade invade nossa casa e transforma toda uma vida em recomeço"
Depois da tempestade
Ao contrário do que costumava fazer, Pedro levantou-se tarde naquele dia de setembro. Era meio da semana e caía uma chuva fina e intermitente desde a noite anterior. Apesar da hora, a casa estava escura e um vento meio frio teimava em soprar na pequena cidade em que ele vivia.
Sem muita pressa ele acendeu a luz do quarto e dirigiu-se ao pequeno banheiro de piso azul-escuro.
Lavou o rosto, mas não o viu.
Voltou-se para o quarto e tirou do armário a pequena mala preta que há muito ganhara do seu avô.
Não precisaria de muita coisa. O principal levava com ele. No corpo. No coração. Na alma.
Não demorou a encher a mala. Uma, duas, três camisas. Todas elas em suaves tons de azul, foram colocadas dentro dela junto com outras peças já escolhidas.
Então Pedro se vestiu, calçou os velhos e descorados sapatos marrons, deu uma volta pelo quarto e saiu sem olhar para trás.
Não correu quando passou pelo corredor. Caminhou vagarosamente porque seus pés se despediam de cada taco de madeira.
Era como se dissessem: foi muito bom caminhar por aqui todos esses anos.
Um vento forte bateu a janela quando Pedro alcançou a cozinha e o barulho provocado pela batida se confundiu com o chiado da panela de pressão.
Na pia, de costas para ele, estava a esposa.
Tão bonita! - pensou ele olhando-a como que hipnotizado.
Ao sentir a presença do marido, ela voltou-se para a porta e lentamente passou os olhos pela figura do marido. Começou pelos pés e foi subindo parando, por alguns segundos, o olhar na pequena mala.
Pedro continuava imóvel. O vento ainda batendo na janela. O chiado da panela de pressão.
Os olhos dos dois se encontraram no momento em que um raio riscou o céu e então eles puderam ver um ao outro com mais clareza e compreenderam que era hora de mudar, apesar de quererem tanto continuar como estavam.
Ela se aproximou do marido e deu-lhe um abraço apertado. Ele correspondeu de imediato e ali, no chão da cozinha, eles se amaram como há muito não faziam. Talvez até com mais amor, pois cada pedaço da pele de ambos sabia:
Depois da tempestade, eles não se pertenceriam mais.

[claudia] [claudiabanegas@dominiocultural.com ] [claudiabanegas.zip.net ]
ResponderExcluirOi, Sara! Obg pela visita ao blog, pelo comentário e pelas palavras. Vim visitar você e com certeza, estás de parabéns. Amei o texto "Tempestade". Todos os amigos das palavras, são meus amigos também... volte sempre, és muito bem vinda! Bjos no coração! (eu voltarei sempre!) =) Cláudia Banegas |
04/10/2007 20:40