O dia em que eu anunciei a morte
Era ainda muito cedo quando o telefone tocou.
Aquele barulhinho foi adentrando em minha mente e provocou confusão nas cenas do meu sonho. De repente, da sua boca, Alberto, o que saíam não eram mais palavras, mas um som estranho parecido com o de uma campainha. Ainda no sonho eu ia pedir-lhe que falasse direito, mas alguma coisa me fez olhar para a porta. Alguém chegara e apertava insistentemente o botão. Eu me levantei e caminhei em direção à porta enquanto dizia “Já vai. Já vai.” Mas a pessoa do outro lado parecia não ouvir e continuava com aquele gesto irritante. E o barulho foi ficando cada vez mais alto e mais alto. Foi aí que eu acordei e vi que o barulho não era de campainha de porta, mas de campainha de telefone.
Eu me levantei sonolenta e, meio cambaleando, alcancei o aparelho com as mãos ainda trêmulas pelo susto. Mal disse alô e do outro lado da linha uma voz pediu que eu chamasse pela Dirce. Por um instante eu ainda fiquei meio confusa. . Não me lembrei de imediato da minha vizinha da frente. Não me culpe, Alberto. Afinal, o que tem a ver a Dirce com o nosso jantar à luz de velas? E não se preocupe. Levei apenas alguns segundos para voltar à realidade. Mesmo porque a voz não deu muito tempo para eu curtir minha preguiça mental. Sem mais delongas, foi pedindo que eu desse um recado urgente para a vizinha. Pediu que eu dissesse a ela que seu irmão de Barretos havia vindo a óbito.
Foi assim mesmo que a voz disse, Alberto: “Diga a ela que seu irmão veio a óbito.” E disse isso assim, de uma maneira simples como se dissesse: “Diga a ela que eu a estou convidando para um chá.”
Você pode imaginar o meu estado de estupefação. Eu, que só vi até hoje uma pessoa morta em toda a minha vida, de repente teria que anunciar para a vizinha, num começo de dia, que o irmão dele havia morrido.
Enquanto atravessava a rua, mil pensamentos invadiram minha mente. Eu que, modéstia à parte, sempre tive facilidade com as palavras, não conseguia formular uma frase que pudesse comunicar à vizinha, a morte de seu irmão de uma maneira não muito dolorosa. Você pode até falar mal de mim, Alberto, mas até na piada do funcionário da fábrica eu pensei. Aquela em que o cara chega para anunciar a morte da mãe do amigo e diz; “Quem tem mãe, dê um passo à frente. Você não, fulano, porque a sua mãe acaba de morrer.”
Isso não é nada engraçado, eu sei. Mas a gente não controla a mente da gente. Aliás, a gente não controla nem a nossa boca. E digo isso, Alberto, porque assim que a vizinha respondeu ao meu chamado e veio caminhando em direção ao portão, a única frase que me veio à boca foi:
“Dirce, seu irmão acaba de vir à óbito.”
E disse isso assim, como quem diz: “Dirce, você vai receber a visita de sua prima de Barretos”
É que a morte, Alberto, não pode ser de outro jeito anunciada. Por si só ela se anuncia. E não há nada que possamos dizer a não ser observar as lágrimas da vizinha.