domingo, 15 de maio de 2011

Te amo, te quero, te espero...

Mas é claro que te amo
Durante a noite e durante o dia te amo
Quando chove ou quando venta te amo
Quando saio ou quando chego te amo
Quando sonho ou quando acordo eu muito te amo

Mas é claro que eu te quero
Sobre a cama ou sobre o feno te quero
No tapete da sala ou na área da casa te quero
Sobre o chão e no telhado eu te quero
Quando sonho ou quando acordo eu muito te quero

Mas é claro que eu te espero
No portão ou na rua te espero
Chorando ou sorrindo eu te espero
Nascendo ou morrendo eu te espero
Quando sonho ou quando acordo eu muito te espero

Te amo
Te quero
Te espero

“Tanto que desespero, feito Roma, feito Nero, até você me perceber”

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Escuro

Escuro

Chegar  para lá  essa dor
Essa dor de morrer de horror
porque já não dá mais pra respirar
Dói aqui dentro
Bem aqui onde pulsa a vida
Aqui onde não há mais vida

Desejo

Desejo

Queria trazer
                   de volta
Seu olhar para
                    minha alma
Sua pele para
                    minha boca
Entrar no túnel
                    do seu peito
Pulsar com seu
                     coração
E encontrar de novo
                     o caminho


terça-feira, 3 de maio de 2011

Você

Você

Saí de casa a te procurar
 E muitas vezes na lua enxerguei o seu olhar
Mas era pura alucinação
 Da minha dor

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ilusão



Ilusão

Levei um tempo pra ver
Meus olhos no espelho de minha alma
Levei um tempo pra ter calma

Por isso corri demais

E chorei no meio da estrada
Achando que já havia chegado ao fim

Inconstância II



Inconstância II

Ás vezes eu estou em mim
como a gota está na chuva
ou o verde no jardim

outras vezes sou de aço
chave, cadeia, cansaço
e, como um novelo, embaraço

queria ser sempre chuva
queria ser sempre flor

e me abrir para o amor

queria ser sempre aço
e assim como um cadeado

poder me esconder da dor


O dia em que eu anunciei a morte

O dia em que eu anunciei a morte




Era ainda muito cedo quando o telefone tocou.
Aquele barulhinho foi adentrando em minha mente e provocou confusão nas cenas do meu sonho. De repente, da sua boca, Alberto, o que saíam não eram mais palavras, mas um som estranho parecido com o de uma campainha. Ainda no sonho eu ia pedir-lhe que falasse direito, mas alguma coisa me fez olhar para a porta. Alguém chegara e apertava insistentemente o botão. Eu me levantei e caminhei em direção à porta enquanto dizia “Já vai. Já vai.” Mas a pessoa do outro lado parecia não ouvir e continuava com aquele gesto irritante. E o barulho foi ficando cada vez mais alto e mais alto. Foi aí que eu acordei e vi que o barulho não era de campainha de porta, mas de campainha de telefone.
 Eu me levantei sonolenta e, meio cambaleando, alcancei o aparelho com as mãos ainda trêmulas pelo susto. Mal disse alô e do outro lado da linha uma voz pediu que eu chamasse pela Dirce. Por um instante eu ainda fiquei meio confusa. . Não me lembrei de imediato da minha vizinha da frente. Não me culpe, Alberto. Afinal, o que tem a ver a Dirce com o nosso jantar à luz de velas? E não se preocupe. Levei apenas alguns segundos para voltar à realidade. Mesmo porque a voz não deu muito tempo para eu curtir minha preguiça mental. Sem mais delongas, foi pedindo que eu desse um recado urgente para a vizinha. Pediu que eu dissesse a ela que seu irmão de Barretos havia vindo a óbito.
Foi assim mesmo que a voz disse, Alberto: “Diga a ela que seu irmão veio a óbito.” E disse isso assim, de uma maneira simples como se dissesse: “Diga a ela que eu a estou convidando para um chá.”
Você pode imaginar o meu estado de estupefação. Eu, que só vi até hoje uma pessoa morta em toda a minha vida, de repente teria que anunciar para a vizinha, num começo de dia, que o irmão dele havia morrido.
Enquanto atravessava a rua, mil pensamentos invadiram minha mente. Eu que, modéstia à parte, sempre tive facilidade com as palavras, não conseguia formular uma frase que pudesse comunicar à vizinha, a morte de seu irmão de uma maneira não muito dolorosa. Você pode até falar mal de mim, Alberto, mas até na piada do funcionário da fábrica eu pensei. Aquela em que o cara chega para anunciar a morte da mãe do amigo e diz; “Quem tem mãe, dê um passo à frente. Você não, fulano, porque a sua mãe acaba de morrer.”
Isso não é nada engraçado, eu sei. Mas a gente não controla a mente da gente. Aliás, a gente não controla nem a nossa boca. E digo isso, Alberto, porque assim que a vizinha respondeu ao meu chamado e veio caminhando em direção ao portão, a única frase que me veio à boca foi:
“Dirce, seu irmão acaba de vir à óbito.”
E disse isso assim, como quem diz: “Dirce, você vai receber a visita de sua prima de Barretos”
É que a morte, Alberto, não pode ser de outro jeito anunciada. Por si só ela se anuncia. E não há nada que possamos dizer a não ser observar as lágrimas da vizinha.

Depois da tempestade

"E de repente a tempestade invade nossa casa e transforma toda uma vida em recomeço"

Depois da tempestade

Ao contrário do que costumava fazer, Pedro levantou-se tarde naquele dia de setembro. Era meio da semana e caía uma chuva fina e intermitente desde a noite anterior. Apesar da hora, a casa estava escura e um vento meio frio teimava em soprar na pequena cidade em que ele vivia.
Sem muita pressa ele acendeu a luz do quarto e dirigiu-se ao pequeno banheiro de piso azul-escuro.
Lavou o rosto, mas não o viu.
Voltou-se para o quarto e tirou do armário a pequena mala preta que há muito ganhara do seu avô.
Não precisaria de muita coisa. O principal levava com ele. No corpo. No coração. Na alma.
Não demorou a encher a mala. Uma, duas, três camisas. Todas elas em suaves tons de azul, foram colocadas dentro dela junto com outras peças já escolhidas.
Então Pedro se vestiu, calçou os velhos e descorados sapatos marrons, deu uma volta pelo quarto e saiu sem olhar para trás.
Não correu quando passou pelo corredor. Caminhou vagarosamente porque seus pés se despediam de cada taco de madeira.
Era como se dissessem: foi muito bom caminhar por aqui todos esses anos.
Um vento forte bateu a janela quando Pedro alcançou a cozinha e o barulho provocado pela batida se confundiu com o chiado da panela de pressão.
Na pia, de costas para ele, estava a esposa.
Tão bonita! - pensou ele olhando-a como que hipnotizado.
Ao sentir a presença do marido, ela voltou-se para a porta e lentamente passou os olhos pela figura do marido. Começou pelos pés e foi subindo parando, por alguns segundos, o olhar na pequena mala.
Pedro continuava imóvel. O vento ainda batendo na janela. O chiado da panela de pressão.
Os olhos dos dois se encontraram no momento em que um raio riscou o céu e então eles puderam ver um ao outro com mais clareza e compreenderam que era hora de mudar, apesar de quererem tanto continuar como estavam.
Ela se aproximou do marido e deu-lhe um abraço apertado. Ele correspondeu de imediato e ali, no chão da cozinha, eles se amaram como há muito não faziam. Talvez até com mais amor, pois cada pedaço da pele de ambos sabia:
Depois da tempestade, eles não se pertenceriam mais.

 

Chuva...

Chuva
(para o meu Bem)

Gotas de chuva caíam no asfalto. Agarradinhos em uma das esquinas escuras da cidade, ela e o namorado, até pouco tempo antes, estavam tremendo do frio repentino causado pelo vento.
Do outro lado da rua, um bêbado tentava desvencilhar-se da água, mas seu corpo de mau equilibrista mal conseguia arcar com o próprio peso e caía novamente deixando que a água lhe cobrisse os olhos, o nariz e lhe enchesse a boca de um líquido que já não era mais água ardente, mas apenas água.
Antes de repararem nas gotas da chuva, o jovem casal havia apenas reparado no efeito desta em seus corpos encharcados pelo frio. Aproveitando o momento, o rapaz enlaçou fortemente a namorada que instantaneamente abrigou seu corpo ao dele. Foi então que ela sentiu o enrijecimento do bico dos seios comprimirem a camisa molhada do rapaz. Ruborizada, a moçoila afastou-se um pouco e procurou pensar em outra coisa chamando a atenção do namorado para o bêbado do outro lado da rua.
Olhando para o jovem alcoolizado, o rapaz não pôde deixar de pensar que, entre ele a namorada e o bêbado, ninguém poderia decidir com presteza quem estava mais preocupado em manter o equilíbrio. O bêbado, já quase inconsciente, não tentava apenas se levantar daquela calçada molhada, mas tentava se reerguer na vida. Ele e a namorada, por outro lado, tentavam manter um equilíbrio entre o desejo que sentiam um pelo outro e as lembranças das palavras ditas pelos pais sobre a importância de se manter a castidade.
Sem o saber, a moça sentia o mesmo, mas nunca havia tido coragem de tocar naquele assunto que, para eles, era tão proibido quanto a sobriedade para o viciado do outro lado da rua.
De repente, como se tivessem combinado, moça e rapaz olharam para o negro asfalto e, de repente, aos olhos de ambos, as gotas da chuva mais pareciam estrelas que caíam no negro asfalto.  Eram estrelas formadas de água que saltavam das nuvens sem pára-quedas e atravessavam a escuridão do espaço sem medo de correr riscos, apenas com o objetivo de sentir o prazer de tocar o chão. Elas eram muitas  e pareciam se multiplicar a cada segundo conforme aumentava a foca da tempestade..
Em poucos instantes, a rua ficou deserta e o casal começou a sentir uma estranha paz invadir-lhes a alma. De repente, tudo pareceu a eles muito certo. E o amor que sentiam um pelo outro se confundiu com o desejo. Se algum anjo passou por ali, pôde perceber que, em apenas alguns minutos, dois corpos transformaram-se em um só enquanto eram abençoados por gotas de chuva que mais pareciam estrelas.


Bom dia!

Bom dia


Seis horas da manhã.
Ele se levanta e vai cambaleando até o banheiro.
Ela abre os olhos sem saber a princípio onde está.
Ele encosta o corpo magro na pia e lava o rosto.
Ela olha o tempo pela janela e decide que vai chover.
Ele escova os dentes como se estivesse batendo ponto.
Ela se espreguiça e senta-se na cama fria.
Ele abre o chuveiro e deixa a água fria lhe despertar a mente quente.
Ela dirige-se tortuosa até a pia do banheiro.
Ele passa o sabonete pelo corpo tentando espantar os sonhos ruins.
Ela caminha até a cozinha e coloca a água do café para ferver.
Ele sai do chuveiro e protege os pensamentos na toalha.
Ela fuma um cigarro enquanto conta as bolinhas do vapor que sai da caneca.
Ele coloca o paletó de todos os dias por cima da camisa de ontem.
Ela joga o restante do cigarro fora e arruma metade da mesa.
Ele aparece na cozinha e, sem nada dizer, senta-se na cabeceira da mesa.
Ela, sem nada dizer, coloca-lhe café na xícara.
Ele toma um gole do líquido negro e corta com as mãos um pedaço do pão dormido.
Ela acende outro cigarro e liga o rádio.
Ele pega o jornal e lê o horóscopo do dia.
Ela canta uma música animada enquanto prepara uma torrada com requeijão.
Ele olha para o relógio e se levanta apressado.
Ela canta uma música triste enquanto se serve de café com leite.
Ele escova os dentes como se estivesse batendo ponto.
Ela canta uma música triste enquanto seu café com leite esfria.
Ele se irrita por não encontrar as chaves do carro.
Ela acende o terceiro cigarro e observa a fumaça dançar no ar.
Ele queria falar.
Ela queria falar.
Mas tudo o que podem dizer um ao outro é bom dia.


Vestido preto

Uma vez a garota foi a uma festa. Com seu vestido
preto básico e suas sandálias novas ela estava realmente
linda.
Todos a sua volta dançavam, bebiam e trocavam uns
com os outros olhares que pareciam chamar pra curtir a
noite sem pressa e sem arrependimentos.
Aquela magia envolveu a garota de uma maneira tão forte que, assim que seus olhos se encontraram com os olhos do garoto  tudo passou a correr de modo óbvio para ambos. De maneira óbvia ele se aproximou, de maneira óbvia ele a
tirou para dançar, de maneira óbvia eles se beijaram e
muito obviamente eles terminaram a noite no banco de
trás do carro dele.
Depois do sexo a sensação de frescor e, com o sono
pesando sobre os olhos, a garota e o rapaz adormeceram.
Acordaram junto com o sol e se olharam para
reconhecer um ao outro.
Junto com o começo do dia uma nova história começava
para eles. A garota, sem roupa sentia-se protegida e o
garoto sentia-se um novo homem.
Aquela teria sido a primeira experiência sexual de ambos se não fosse a terceira de cada um.
É de repente que a garota olha o relógio e diz ao garoto que precisa voltar pra casa. O garoto então se oferece para levá-la,  mas ela recusa. Quer ir a pé para poder pensar. Com um beijo na testa do amante, ela desce do carro e segue o caminho que a levará para casa.
O garoto segue em sentido contrário de repente sente que não poderá mais ir para nenhum outro caminho que não seja o dela.
O único detalhe é que não trocaram nem endereço nem telefone.
E muita coisa aconteceu sem que eles se encotrassem.
...

Ele demorou muito tempo para perceber onde estava. Sua
mente estava tão vazia quanto as paredes brancas do
hospital. A cabeça doía e ele não conseguia mexer a perna
direita.
...

O jantar esfriava na sua frente e ela demorou muito
tempo para perceber que a mãe falava seu nome. A cabeça
doía e ela não conseguia parar de pensar nele.
...

Depois de muita insistência por parte da mãe, o garoto
concordou em permanecer em casa por alguns dias.
...

O telefone toca e a garota atende. É o pai comunicando
que as passagens do ônibus já foram compradas e que ele
a esperará na rodoviária na manhã do dia seguinte.
...

Noite quente de céu estrelado. Um garoto entra no
salão sentado em uma cadeira de rodas. A música toma
conta do ambiente. Rostos diferentes e, ao mesmo tempo,
tão iguais dançam despreocupadamente.
Ele procura por uma garota de vestido preto, mas não consegue encontrá-la. Besteira esperar, besteira acreditar em sonhos de criança.
Encostada na porta do carro ela espera impaciente o
irmão trocar um pneu furado.
Tudo pronto. Ela retoca o batom, escova os
cabelos, ajeita o vestido preto e, finalmente, entra no
grande salão. O irmão se perde no meio da multidão. E a
garota, vendo seu sonho virar triste realidade, chora.
Resolve então, voltar para casa de táxi mesmo. Mas de
repente é tão difícil encontrar algum...
Depois de algum tempo alguém faz sinal para parar um
carro. É um garoto de cadeira de rodas.
A garota pensa em quão louca tem que ser uma pessoa para ir a um baile com parte do corpo engessado. Resolve pedir para que a corrida seja dividida e então se aproxima do garoto.
Toca seu ombro e então ele se vira para ela.
Dois pares de olhos se afundam um no outro e esquecem
do mundo enquanto o motorista pergunta para onde deve
seguir.
É neste momento que eles sorriem e respondem:
- Nós já chegamos.


12 de junho

Será?
Nem tudo são flores, amigo.
Sossegue que o seu dia há de chegar.
E não pense que as coisas acontecerão do jeito que você sempre sonhou. Talvez não haja flores, nem luz colorida de boate. Provavelmente você não estará vestindo a sua melhor roupa e poucas são as chances de estar com os cabelos impecavelmente penteados. Talvez sua pele não esteja fresca do banho e você ainda não tenha escovado os dentes.
Talvez a chuva que estará caindo te deixará de mau humor por ter deixado frios os seus pés.
E não adianta dizer que não quer que aconteça no dia 13 de agosto. Essa coisa não tem dia e nem hora. E também não tem um jeito de acontecer.
Pode vir devagarzinho com jeitinho manso de criança que se aconchega nos braços da mãe. Ou então vem de repente e, assim, como um acidente de carro, muda toda a sua vida. Pode te deixar de perna bamba (talvez nunca mais você ande sozinho). Pode te deixar de cama (mas às vezes isso não é ruim). Pode te fazer chorar como se a dor que vai sentir fosse a pior do mundo. No entanto, muitas vezes vai te fazer ser o dono do mais belo sorriso. Você poderá gaguejar e esquecer das coisas mais tolas. E não pense que as pessoas te chamarão de idiota, porque você vai estar lindo.
O que você não deve é apressar as coisas. A pressa espanta esse dia esperado. Ele tem medo dos ponteiros do relógio e da voz do vento que anda.
Sossegue, amigo.
O seu dia há de chegar.
E num dia 12 de junho qualquer você nem se lembrará mais das minhas palavras.

É preciso dizer eu te amo ( poema para minha mãe)


É preciso dizer eu te amo

É preciso dizer eu te amo
porque o "eu te amo" é vago, impreciso
frágil, transparente

 É preciso dizer eu te amo
 porque o "eu te amo"não tem memória
 Desaparece no tempo
 E, assim como o vento,
 é sentido e passado

 É preciso dizer eu te amo
 porque o "eu te amo" deixa de ser assim que é dito
 não pode ser discutido
 pois já não existe mais

 É preciso dizer eu te amo
 Todos os dias, em todas as horas

 e depois de novo, e de novo...

 sem nunca esquecer...

 Que o "eu te amo" dito agora
 já acabou de morrer