Cúmplices
Eram dois namorados. No sentido exato da
palavra amor. Não aquele amor que ia e voltava conforme as circunstâncias. Era
aquele amor que, aos poucos fora se impregnando em nossas peles e em nossas
almas.
Naquela tarde de outubro caminhavam no
parque da cidade. Usávam passos curtos,
porque, em êxtase de amor, aquele que ama não tem pressa. E usavam o silêncio, porque na maior parte
das vezes, a palavra destrói o encanto de amar.
Sentaram-se embaixo da
grande árvore, num banquinho todo encardido pelas marcas constantes de mãos e
pés. Mas eles não viam nada daquilo. Apenas sentiam as mãos entrelaçadas uma na
outra. A dela, pequena e doce, com unhas recém pintadas de um rosa tão pálido que quase não mais o era. A dele,
grande e protetora, capaz de a segurar com firmeza não importasse a altura do
tombo.
Deixaram-se ficar ali. Por
um momento parados apenas sentido no corpo o calor do sol. Era um calor doce,
afável. Era uma carícia.
Em um momento qualquer, ela
olhou para o chão e viu a pequena
formiga na terra seca.
Era dessas formigas miúdas,
mas cheia de energia e graça. Ao contrário dos namorados ela parecia ter
pressa. Andava de um lado para outro como se procurasse por algo há muito
perdido. Então ela notou que a formiga agia assim porque sentia a vibração
causada pelos seus corpos.
A moça olhou para o rapaz e
ele, compreendendo, parou de mexer os pés. Apertando-lhe a mão ela continuou a olhar o pequeno inseto que agora
seguia em segurança em direção ao concreto do banco. Parou por um instante como
se pensasse se valeria a pena escalar tão grande montanha. Mas seu pensamento
foi mais lento que suas pequeninas pernas, pois mal acabara de pensar, já
estava bem perto das coxas da moça. Essas eram negras, mas infinitamente mais
claras que o restante do corpo que mais parecia as asas da ave usada pelo
famoso escritor.
O rapaz acompanhava
hipnotizado todo o movimento da atrevida formiga. Começou a sentir um certo
incômodo quando o pequeno ser sumiu por debaixo da saia da moça. Esta, numa
atitude inocente, fez que não percebeu sua angústia e delicadamente abriu um
pouco mais as pernas.
O rapaz suava frio. Soltando
a mão da moça, passou as costas da sua pela testa. Podia inundar todo o parque em menos de um minuto e ela o
sabia. Por isso mesmo continuava a contorce-se soltando pequenos gemidos.. É
que a formiga, a pequenos intervalos de tempo, enfiava seu ferrão no pequeno
corpo magro provocando uma sensação de mista de prazer e dor.
Os olhos dela encontraram os
dele quando, triunfante, o pequeno inseto surgiu na altura do busto da moça.
Viram no olhar um do outro que agora tudo havia acabado.
Estavam cansados, mas
felizes.
Por isso, assim que a
pequena formiga alcançou o frio concreto e logo depois o chão, os dois
namorados levantaram-se e, sem trocar uma única palavra, seguiram seu caminho.
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