sexta-feira, 4 de janeiro de 2013




Cúmplices

     Eram dois namorados. No sentido exato da palavra amor. Não aquele amor que ia e voltava conforme as circunstâncias. Era aquele amor que, aos poucos fora se impregnando em nossas peles e em nossas almas.
     Naquela tarde de outubro caminhavam no parque da cidade.  Usávam passos curtos, porque, em êxtase de amor, aquele que ama não tem pressa.  E usavam o silêncio, porque na maior parte das vezes, a palavra destrói o encanto de amar.
     Sentaram-se embaixo da grande árvore, num banquinho todo encardido pelas marcas constantes de mãos e pés. Mas eles não viam nada daquilo. Apenas sentiam as mãos entrelaçadas uma na outra. A dela, pequena e doce, com unhas recém pintadas de um rosa  tão pálido que quase não mais o era. A dele, grande e protetora, capaz de a segurar com firmeza não importasse a altura do tombo.
     Deixaram-se ficar ali. Por um momento parados apenas sentido no corpo o calor do sol. Era um calor doce, afável. Era uma carícia.
     Em um momento qualquer, ela olhou para o chão e viu a  pequena formiga na terra seca.
     Era dessas formigas miúdas, mas cheia de energia e graça. Ao contrário dos namorados ela parecia ter pressa. Andava de um lado para outro como se procurasse por algo há muito perdido. Então ela notou que a formiga agia assim porque sentia a vibração causada pelos seus corpos.
     A moça olhou para o rapaz e ele, compreendendo, parou de mexer os pés. Apertando-lhe a mão ela  continuou a olhar o pequeno inseto que agora seguia em segurança em direção ao concreto do banco. Parou por um instante como se pensasse se valeria a pena escalar tão grande montanha. Mas seu pensamento foi mais lento que suas pequeninas pernas, pois mal acabara de pensar, já estava bem perto das coxas da moça. Essas eram negras, mas infinitamente mais claras que o restante do corpo que mais parecia as asas da ave usada pelo famoso escritor.
     O rapaz acompanhava hipnotizado todo o movimento da atrevida formiga. Começou a sentir um certo incômodo quando o pequeno ser sumiu por debaixo da saia da moça. Esta, numa atitude inocente, fez que não percebeu sua angústia e delicadamente abriu um pouco mais as pernas.
     O rapaz suava frio. Soltando a mão da moça, passou as costas da sua pela testa. Podia inundar  todo o parque em menos de um minuto e ela o sabia. Por isso mesmo continuava a contorce-se soltando pequenos gemidos.. É que a formiga, a pequenos intervalos de tempo, enfiava seu ferrão no pequeno corpo magro provocando uma sensação de mista de prazer e dor.
     Os olhos dela encontraram os dele quando, triunfante, o pequeno inseto surgiu na altura do busto da moça. Viram no olhar um do outro que agora tudo havia acabado.
     Estavam cansados, mas felizes.
     Por isso, assim que a pequena formiga alcançou o frio concreto e logo depois o chão, os dois namorados levantaram-se e, sem trocar uma única palavra, seguiram seu caminho.
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