Sol de meio dia
Todo
mundo, pelo menos uma vez na vida, já sentiu o sol do meio dia. Ele
aprece nas situações mais simples da vida e costuma brilhar tanto que
deixa nos deixam cegos. Por isso, muitas vezes, passa despercebido de
tanto brilhar e a gente só consegue vê-lo em uma noite qualquer, quando
estamos batendo papo com amigos recentes que quase não sabem nada da
gente, mas que nos conhecem tanto porque somos iguais a eles apesar de
tão diferentes.
Nessas
conversas de esquina que começam do nada, mas se abrem como flores da
primavera, o sol de meio dia aparece nas lembranças de infância nas
quais nós, juntamente com meus três irmãos, nos sentávamos com nossa mãe
na varanda lá de casa durante as férias frias de julho a jogar conversa
fora enquanto nos aquecíamos uns aos outros mais do que o sol aquecia a
gente. Duvido que exista no mundo, alguém com lembrança mais doce que a
voz da minha mãezinha nos contando, naqueles momentos os segredos do
mundo inteiro. Segredos do tipo que só as mães sabem, porque guardam no
peito o calor intenso do sol de meio dia.
Nessas
conversas de viagens longas em que nos sentamos ao lado de um estranho
próximo, também costumamos nos lembrar do sol de meio dia. Talvez porque
enquanto olhamos a paisagem dos postes que correm e se confundem com as
árvores, confundimos também nossas conversas e entregamos ao outro a
lembrança daquela tarde de domingo em que, deitados sobre o peito nu de
meu pai, eu dormi uma tarde inteira. E no meu sonho as vozes das
personagens se confundiram com o palpitar de seu sangue. É
por isso que eu duvido que possa existir no mundo, alguém com lembrança
mais doce do que o cheiro da pele do meu paizinho contando-me os
segredos do mudo inteiro. Segredos do tipo que só os pais sabem, porque
guardam no peito a paz e a segurança que retiram do calor intenso do sol
de meio dia.
Outras
vezes estamos no corredor de um hospital qualquer esperando notícias de
um ente querido. E começamos a conversa falando do calor, ou da vida,
ou da morte. E de repente eu em lembro daquelas madrugadas de longas
conversas com meus irmãos. Os quatro deitados em camas separadas, porém
tão juntas. E, enquanto trocávamos segredos de alcova, soltávamos
gargalhadas que alcançavam as estrelas e a lua. E os cometas e todo o
universo paravam para olhar para aquelas quatro crianças cheias de
sonhos. É por isso que eu duvido que possa existir no mundo, alguém com
lembrança mais doce do que a alegria de meus irmãos contando-me os
segredos do mundo inteiro. Segredos do tipo que só os irmãos sabem,
porque guardam no peito a cumplicidade que retiram do calor intenso do
sol do meio dia.
Às
vezes parece que o sol do meio dia se pôs para sempre. Talvez porque o
tempo tenha varrido a varanda da antiga casa. E tenha me feito crescer
tanto que já não me encaixo mais no colo de meu pai. Talvez porque cada
um dos quatro irmãos tenha tomado um rumo diferente na vida. Cada qual
com seu quarto e sua cama. E seus problemas e seus sonhos.
Mas
outras pessoas vieram. E continuam vindo. É que em alguns momentos o
sol de meio dia está apenas a me cegar de tanto brilho.